A VIOLINISTA
(THE VIOLINIST)
(publicado no Equinox IV, 1)
A sala estava nublada com um diabólico incenso: açafrão, opoponax, galbanum, almíscar, e mirra, a pureza do último ingrediente uma maldição de blasfêmia, um escárnio final; tal deboche poderia insultar um Raphael ao colocá-lo numa sala devotada àquele deboche.
A garota era baixa, e delicadamente construída, um tipo de flexível caçadora. Seu vestido, justo, era de uma seda dourado-castanha que combinava, mas não poderia competir, com os cachos que atavam sua fronte — brilhantes e assobiantes como cobras.
Seu rosto era Grego em delicadeza; mas o que dizer sobre aquela boca, nele? A boca de um sátiro ou de um demônio. Ela era cheia e forte, duplamente curvada, seus cantos altos, de um púrpura colérico, com lábios insípidos. Seu sorriso era como o ranger de dentes de uma fera selvagem.
Ela ficou de pé, violino à mão, diante da parede. Do outro lado estava uma grande tabela de mosaico; muitos quadrados e muitas cores. Nos quadrados haviam letras numa língua desconhecida.
Ela começou a tocar, seus olhos cinzentos se fixaram em um quadrado cujo centro estava esta letra, N*. Ele era preto sobre branco; e os quatro lados do quadrado eram azul, amarelo, vermelho e preto.
Ela começou a tocar. A ária era leve, doce, suave e lenta. Parecera que ela ouvia não à ela própria tocando, mas à algum outro som. Seu arco se tornou mais rápido; a ária progrediu áspera e selvagem, irritada; acelerou mais adiante até uma velocidade que se assemelhava à chamas consumindo um fardo de feno; se suavizou novamente até uma lamentação.
Cada vez que ela mudava a alma da música parecia como se estivesse exausta: como se ela estivesse tentando soar uma frase particular, e sempre se sentisse confusa no último instante. Nem havia luz alguma em seus olhos. Havia intenção, havia cansaço, havia paciência, havia agilidade. E a sala estava estranhamente silente, pouco simpática em relação ao seu humor. Ela era a coisa mais turva no meio daquela luz cinzenta. Ela ainda aqueceu. Ela continuou mais tensa, sua boca se apertou, uma feia pressão. Seus olhos brilharam com — o que é o ódio? A alma da música era agora angustiante, implorante, desesperadora — até chegando à algo inatingível.
Ela se sufocou, num choro compulsivo. Ela parou de tocar; ela mordeu seus lábios, e uma gota de sangue mantinha-se neles, deixando seu rubro contra seu inflamado púrpura, como pôr-do-sol e tempestade. Ela os pressionou contra o quadrado, e uma mancha tingiu o branco. Seu coração se apertou; pois alguma estranha dor a rasgou.
Em cima estava seu violino, e seu arco o cruzava. Pode ter sido como as espadas de dois habilidosos esgrimistas, ambos cegados pelo ódio mortal. Pode ter sido como os corpos de dois habilidosos amantes, cegados pelo amor imortal.
Ela rasgou vida e morte em suas cordas. Acima, acima pairava a fênix de sua música; passo a passo na dourada escalante-ladeira de sua ária ela escalava a cidadela de seu Desejo. O sangue escorreu e inflamou sua face embaixo de seu suor. Seus olhos estavam injetados com sangue.
A música se ergueu, culminou — ultrapassou as barreiras, chegou à sua frase.
Ela parou; mas a música continuou. Uma névoa se acumulou sobre o grande quadrado, ameaçador e repugnante. Havia um despedaçador som agudo sobre a melodia.
Diante dela, com as mãos sobre suas coxas, estava um garoto. Dourados eram seus cabelos e vermelhos seus jovens lábios, azuis seus olhos. Mas seu corpo era etéreo como uma película de orvalho sobre o vidro, ou enferrujado como uma graciosa vestimenta; e tudo foi terrivelmente tingido de preto.
“Meu Remenu!” ela disse. “Há quanto tempo!”
Ele sussurrou em seu ouvido.
A luz atrás dela flutuou e se foi.
O espírito colocou seu violino e seu arco sobre o chão.
A música se foi — uma desejosa, quente melodia como loucas águias em mortal luta com os bodes da montanha, como serpentes pegas em caçadas selvagens, como escorpiões atormentados por garotas Árabes.
E no escuro ela chorou e gritou em uníssono. Ela não havia esperado por isso: ela havia sonhado com o amor mais apaixonado, com o desejo mais fantasticamente-ardente, que o simples mortal.
E isto?
Esta real perda da verdadeira castidade? Esta degradação, não do corpo, mas da alma! Esta branca e quente, envolvente chama — fria como o gelo sobre seu coração? Este torto raio que ela despedaçou? Esta tarântula de lodo que espalhou-se acima de sua espinha?
Ela sentiu o sangue correndo sobre seus seios, e sua espuma em sua boca.
Então subitamente as luzes se acenderam ela se achou sustentada — revirada — com sua cabeça caída sobre seu braço.
Novamente, ele sussurrou em seu ouvido.
Em sua mão esquerda estava uma pequena caixa de ébano, com uma pasta escura dentro. Ele esfregou um pouco em seus lábios.
E uma terceira vez, ele sussurrou em seu ouvido.
Com o sorriso de um anjo, salvo pela sutileza — ele se foi até a tabela.
Ela se virou, assoprou o fogo, que se iniciou amigavelmente, e se atirou na poltrona. Com preguiça ela tocou, desafinadamente, antiquadas e simples melodias.
A porta se abriu.
Um alegre rapaz entrou e sacudiu a neve de seu casaco.
“Tem estado muito entediada, garotinha?”
“Não, querido!” ela respondeu. “Estava tocando um pouco.”
“Me dê um beijo, Lily!”
Ele se curvou e juntou seus lábios aos dela; então, como que se fulminado por um raio, estendeu-se, um cadáver.
Ela encarou com desânimo através dos olhos entreabertos com aquele seu sorriso que era uma confusão.
FRANCIS BENDICK.
(Aleister Crowley)
* a letra é um Drux enochiano.